HISTÓRIA
DA SERENATA
A história conta
que, no período de 1860 a 1880, com o desenvolvimento de
Conservatória, devido às grandes lavouras de café e ao escoamento
das produções de Minas Gerais, a influência da côrte trouxe
para a nossa Vila alguns professores de música, principalmente de
piano e violino, instrumentos que a alta sociedade desfrutava àquela
época. Daí, sabe-se que professores de música: Venâncio da Rocha
Lima Soares, Carlos Janin, Geth Jansen e Andréas Schimdt ficaram
famosos, principalmente este último, que era virtuoso no violino.
Os artistas da côrte vinham periodicamente a Conservatória
fazer saraus, quando alegravam as famílias dos nobres que habitavam
estas paragens. Esses artistas, em noites enluaradas se reuniam
na Praça da Matriz, ao lado do chafariz, do poste de luz a querosene
e dos bancos da praça e faziam uma verdadeira serenata aos fazendeiros,
barões e suas famílias e o povo se postava à distância assistindo
e aplaudindo.
De 1880 a 1890,
havia os tropeiros que traziam as cargas de café de Minas Gerais
e que cantavam suas modinhas acompanhados de violas e violões. Segundo
o saudoso Paulo Tapajós - que foi um grande compositor, cantor e
seresteiro - os membros da alta sociedade criaram a Moda, que era
um mito de música clássica, do fado português e da música crioula.
Assim, o povo de classe mais pobre criou a Modinha, que ficou sendo
a música do povão, já estilizada como música brasileira.
No período de
1890 a 1900, a música popular brasileira era cantada e divulgada
em todo o país, sendo algumas, até mesmo, de autores desconhecidos
e que se tornaram de domínio público, como é o caso de Casinha Pequenina,
destaque nas serenatas de Conservatória.
De 1900 a 1910
- início do Novo Século - começaram as primeiras serenatas de rua
em Conservatória, principalmente em frente ao casarão (atualmente
casa cedida para a instalação da Casa de Cultura), que foi propriedade
de João Ribeiro de Carvalho, rico proprietário nesta localidade.
De 1910 a 1920,
os seresteiros foram aparecendo e as serenatas repercutiam entre
o povo conservatoriense. As serenatas se incorporaram aos costumes
do lugar. Novos seresteiros desfilavam pelas ruas até alta madrugada
cantando canções sentimentais em frente às janelas das casas coloniais
em homenagem as pessoas queridas ou namoradas.
De 1920 a 1930
a serenata se tornou popular. Já havia os seresteiros tradicionais:
Cândido Barra, Florêncio, José Miguel (Indiça) e outros. Naquela
época houve uma fato pitoresco que ficou na história das serenatas
de Conservatória. O fazendeiro Antônio Castelo Branco colocou um
piano num pequeno caminhão e fez serenata para senhorita Lindóca,
em frente a sua casa à rua Direita, atual rua Luiz de Almeida Pinto.
Esta serenata, ao som do piano, acordou toda a rua e foi comentada
por muito tempo.
Em 1938 aconteceu
a chegada de dois jovens estudantes do Colégio Pedro II no
Rio de Janeiro, José Borges de Freitas Netto e Joubert Cortines
de Freitas começaram a frequentar Conservatória em
suas férias. Chegaram de calças curtas, cheios de
ilusões e energia. Começaram a viver e sentir tudo
que aqui existia e, sem planejar coisa alguma, conseguiram, de maneira
espontânea e simples, eternizar as canções cantadas
nas serenatas e cultivar o amor. Hoje, Conservatória é
o que é graças a eles e aos seresteiros que compreendem
e levam para as ruas esse amor que não tem limites.
É uma
constante a harmonia e o lirismo que acontecem nas vielas sonoras
de Conservatória.
Quando aqui chegaram, José Borges e Joubert já encontraram
alguns seresteiros, como: Merito, Zezinho Barra, José Correa,
Luiz Gonzaga Magalhães, Antônio Seabra, Florência,
Lenzi (flautista), José Mateus, irineu de Carvalho, Heitor
Simões, José Barra Sobrinho, Braz Luiz e os meninos
Helvecio, Toninho Mautoni e Alberto Palheta que, com suas vozes
e instrumentos, já vinham mantendo a tradição
da serenata.
As valsas e
canções do "Índio", como era chamado
Cândido das Neves, um dos maiores compositores da música
romântica brasileira, já eram cantadas pelas ruas,
onde as noites eram mais bonitas, pois a iluminação
elétrica insuficiente as tornava mais claras com a luz do
luar.
A partir daí, com muita dedicação e perseverança,
começou a tragetória dos irmãos José
Borges de Freitas Netto e Joubert Cortines de Freitas.
Foi na década
de 50, com a partida do notável seresteiro Emérito
Silva ("Merito"), que Joubert e José Borges assumiram,
gradualmente, a liderança da serenata. José Borges
formou-se advogado e Joubert em professor de matemática.
Trabalharam nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Nessa
época as serenatas aconteciam apenas no período das
férias escolares e nos feriados prolongados, porém,
diariamente.
Foi por volta
da década de 60, na residência de José Borges,
na rua Oswaldo Fonseca, que os amantes da boa música começaram
a se reunir antes das serenatas e isso formou um hábito e
as lembranças e fotos antigas começaram a ser colocadas
em suas paredes, tornando-se o ponto de encontro dos seresteiros.
O povo começou a chamar esse local de "Museu da Seresta"
que surgiu por acaso, não foi planejado, aconteceu. Nessa
velha casa de apenas uma porta e duas janelas, bem altas, construção
antiga com seus beirais enormes, telhas coloniais, é que
se encontra todo um mundo de saudades e de recordações
com um completo documentário sobre as serenatas de Conservatória.
Velhos discos, fotografias, recortes de jormais, livros, pinturas
de vários artistas sobre Conservatória, troféus,
mensagens de carinho, formando um acervo riquíssimo sobre
músicas de serenatas. E a serenata foi se tornando cada vez
mais conhecida. As notícias nos jornais sobre o romantismo
existente em Conservatória aumentava sem parar. Novos seresteiros
continuaram a despontar.
Na década
de 70 surgiu o projeto das plaquinhas de metal colocadas nas esquinas,
constando além do nome da música, o nome do compositor.
O intúito era imortalizá-lo. Era o início do
projeto "em cada esquina uma canção",
(frase esta criada para sentir a opinião da população
local com relação às plaquinhas), idealizado
pelos irmãos Freitas. Os
moradores se interessaram e quiseram uma plaquinha com o nome de
sua música preferida fixada em suas residências. E
cada vez mais, num crescente constante, Conservatória passou
a respirar música, amor e poesia, tornando-se a "Vila
das ruas Sonoras" e, o projeto inicial "em cada esquina
uma canção", transformou-se para "em
toda casa uma canção".
O substancial
número de turistas todos os finais de semana provocou modificações
na serenata, que evoluiu do canto à janela da amada, no silêncio
da madrugada, até a emocionante confraternização
musical que acontece atualmente, pelas ruas do centro urbano, nas
noites de sextas e sábados e, mais recentemente, nas manhãs
de domingo.
Fiéis
a tradição, os "cantadores" e "violeiros"
apresentam-se sem qualquer ajuda de equipamento eletrônico,
contando exclusivamente com a participação dos visitantes,
seja para acompanhar na cantoria, ou para fazer silêncio,
de forma que todos possam ouvir. Ao visitar Conservatória,
descobre-se a diferença entre seresta e serenata:
a primeira refere-se ao canto em ambiente fechado, a segunda, ao
canto sob o sereno, à luz das estrelas e do luar. É
a serenata que diferencia Conservatória de qualquer outro
lugar do país. No entanto, divulgações equivocadas,
referem-se a Conservatória como "Cidade das Serestas"
quando o mais correto seria "Cidade das Serestas e Serenatas",
ou simplesmente "Capital da Serenata", no dizer do jornalista
Gianni Carta, em publicação na Inglaterra.
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